O conservadorismo como uma disposição

O conservadorismo como uma disposição

13/07/2020 2 By Victor Hugo
A palavra conservador em sua origem lat. “conservātor,ōris” significa em português as seguintes palavras/características: “conservador, salvador e preservador”. Já a palavra disposição em sua etimologia lat. dispositĭo,ōnis significa: “ordem ou disposição”.
Todo conservador possue essa disposição ao ato de conservar, ou seja , todo conservador quer manter a ordem e o governo naquilo que resistiu aos sucessivos e exigentes testes do tempo, seja isso, uma instituição, tradição , sistema político ou valores de uma sociedade.
Todos somos conservadores, sejam progressistas, liberais, socialistas, reacionários etc. Todos querem conservar/preservar seus amigos, família, amores, momentos de quais foram felizes e seus valores individuais.
E a disposição conservadora da qual gostaria de tratar neste artigo é esta: O desejo de reformar o que deu errado na sociedade e, de conservar/preservar o que foi efetivo e correto.
Antes de ser qualquer outra coisa, como uma “doutrina” ou, até mesmo, de acordo com alguns teóricos “ideologia”, o conservadorismo é uma disposição como proclamava Oakeshott. Precisamos possuir esse sentimento/desejo de disposição ao que desejamos preservar. E essa disposição possui algumas características às quais desejo ressaltar aqui.
A primeira característica do sentimento conservador e de disposição é, a paciência ou prudência. Burke foi um grande defensor desta virtude (prudência) o que culminou tornando-a um dos pilares do conservadorismo, assim como o ceticismo, que tratarei mais à frente. Ou seja, a disposição conservadora está interligada intrinsecamente com a prudência, que faz parte da personalidade discreta conservadora.
A segunda característica é o ceticismo político. Talvez, seja essa talante o mais importante dentro da grande tradição conservadora, pois, é através desse cunho cético que os conservadores são aversos às revoluções e utopias políticas. Esse traço cético de desconfiança e descrédito, fez com que os conservadores tornassem a ser os mais solenes defensores das tradições, da religião e, do comunismo que sempre almejou destruir a família.
Ao meu ver, esses dois aspectos são inseparáveis dentro desse pensamento político. Todavia, existiu um pensamento que resumiu a disposição conservadora de forma simples, objetiva e, inteligente, foi ele Michel Oakeshott. Vamos à sua sentença:
“Assim, ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o facto ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica. As relações e lealdades familiares serão preferíveis ao fascínio de vínculos mais proveitosos; comprar e expandir será menos importante que conservar, cultivar e desfrutar; a dor da perda será maior que a excitação da novidade ou da promessa.” Michael Oakeshott
Portanto, caro leitor, esse sentimento de preservar o que ama, como dizia Roger Scruton é, natural do ser humano. John cobb classificou o conservadorismo como um temperamento . Perceba que todas essas classificações não estão distantes da palavra disposição , a qual eu tratei durante todo esse artigo.
Portanto, o conservadorismo está além de qualquer outra ideologia política. Como diz J.P Coutinho em seu ensaio “ideias conservadoras”: “mais ainda, o conservadorismo não é uma ideologia, preferindo encontrar refúgio identitário em “forças interiores”.
Essa disposição está dentro de nós, intrínseca assim como uma “fé”, todavia, precisamos entender que isso é diferente do conservadorismo, ou seja, é possível um indivíduo ter temperamento conservador e, não preferir o conservadorismo político. O conservador disposto, é não só anti-utópico como também, pode aproximar-se do reacionárismo. Já o conservadorismo político e como governante não é apenas anti-utópico e, anti-revolucionário mas, ele prefere o mais próximo do que a felicidade falsa dita pelos revolucionários.
Portanto, meus caros, o conservadorismo está além do que pensamentos e, é mais complexo do que possamos imaginar, para finalizar encerro com o que Scruton disse em seu ensaio “como ser um conservador”:
                    “O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é uma das lições do século XX. Também é uma razão pela qual os conservadores sofrem desvantagem quando se trata da opinião pública. Sua posição é verdadeira, mas enfadonha; a de seus oponentes é excitante, mas falsa.”